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29/07/2019
Tabelamento do frete impulsiona crescimento de 18% da cabotagem

A tabela do frete instituída no governo Temer e editada, agora, na gestão Bolsonaro, com o objetivo de beneficiar os caminhoneiros, não trouxe o efeito esperado pela categoria desde 2018 e, ao contrário do que se imaginava, tem contribuído para a diversificação dos modais logísticos do Brasil. Moeda de troca para o fim da greve no ano passado, em 2019, segundo os caminhoneiros, a medida já não os paga o suficiente, mas elevou os custos dos produtores e forçou a busca por alternativas que tentam ganhar espaço frente à alta concentração rodoviária no País. De acordo com a consultoria Ilos, entre os meses de junho do ano passado e abril de 2019, o volume transportado entre portos da costa brasileira (cabotagem) apenas de contêiner cresceu 18,2%, percentual elevado a 21%, se considerado só o primeiro quadrimestre deste ano.

Se entre 2017 e 2018 foram transportados 8,8 milhões de toneladas, entre o ano passado e este, o volume já alcança 10 milhões, tendo 21% das grandes indústrias nacionais, após o fim da greve, apontado mudança para uso de navios e 38% delas reduzido os investimentos no setor rodoviário até 2021. “O preço do frete aumentou. Por consequência, os preços finais dos produtos tendem a ser mais altos também, e o resultado é que a gente acaba pagando a conta. As empresas, por sua vez, para reduzir os custos, buscaram alternativas. A mais viável seria a ferroviária (mais barata), mas como não temos infraestrutura, a cabotagem se tornou a alternativa menos onerosa e sem intervenção direta do governo para fazer transporte de cargas pelo País”, analisa o professor de logística e administração da UniFBV/Wyden, Paulo Alencar.  Segundo ele, a nova tabela de frete, editada pelo governo Bolsonaro, deixa o custo ainda maior, ou seja, “mais uma vez o governo está tentando não comprar briga com os motoristas porque o Brasil é muito dependente do rodoviário”, frisa.

Embora o transporte por rodovias já fosse o segundo modal mais caro do País, as constantes ameaças dos caminheiros trouxeram ainda mais instabilidade para os empresários que, na dúvida em correr tantos riscos e pagar caro, passaram a ver a cabotagem com outros olhos. “A cabotagem representa hoje no Brasil 11% da matriz de transporte. No setor, a competição se dá diretamente com o rodoviário, que realmente é muito representativo por aqui e bem fora dos padrões internacionais. De fato, a cabotagem e a ferrovia entram como as opções mais adequadas para um certo perfil de movimentação: as de carga a longas distâncias e com maior volume, que estejam próximas aos portos. Mesmo aí, ainda tem um grande volume absorvido pelas rodovias”, detalha a diretora da área de Inteligência de Mercado do Instituto Ilos, Maria Fernanda Hijjar.

Conforme o próprio instituto, pegando tudo que está sendo transportado via rodovia, próxima dos portos, e percorrendo mais de 1,5 mil km, a cabotagem (mais adequada para esse caso) poderia aumentar em até cinco vezes o seu volume de movimentação, chegando a 15% da matriz. “A gente vê que tem uma demanda realmente reprimida para a cabotagem. A grande questão é o preço e o tempo de entrega. Se tinho mais navios com mais frequência, o nível de serviços melhora. A cabotagem hoje precisa ter condições de concorrência com o rodoviário, mas ainda existe uma série de questões que impedem isso”, reforça Maria Fernanda.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), Cleber Cordeiro, ainda que haja impedimentos legislativos e econômicos, a cabotagem tem crescido em média 12% ao ano na última década, mesmo com economia nacional estagnada. “Na verdade, há um espaço ainda muito maior para a cabotagem crescer. Esse crescimento está relacionado a uma série de fatores que estão dentro do nosso setor, de navegação e outros que estão fora. Deve ter cerca de 200 mil rodoviários no País hoje, e nós, na cabotagem, somos 10 empresas – que não concorrem só entre si, concorrem com esses outros 200 mil”, reclama Cordeiro.

O setor, embora não seja considerado um grande empregador, é responsável por manter aproximadamente 50 mil vagas, que, pelo menos no que diz respeito ao transporte de cargas (diferente dos estaleiros), não tem sofrido com o avanço do desemprego. “Não somos grandes empregadores, por uma questão básica: um navio carrega o equivalente a 4 mil carretas. Só aí, para cada carreta, é um motorista ou mais de um sendo empregado. Numa tripulação de navio, são em média 20 pessoas. Nós nunca seremos uma atividade intensiva em mão de obra, mas uma característica é que nossa mão de obra é altamente qualificada. O custo médio para mantê-la está ligeiramente inferior ao transporte aéreo e pelo menos 10 ou 15 vezes mais alto que o transporte rodoviário”, pondera o presidente da Abac.

Fonte: JC

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