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29/07/2019
Brasil poderá anunciar na Cúpula dos BRICS em novembro adesão ao megaprojeto chinês Nova Rota da Seda

Brasília – O Brasil poderá anunciar a decisão de integrar a Nova Rota da Seda, o grande projeto global de investimento em infraestrutura promovido pela China, durante a realização da reunião dos BRICS, nos dias 13 e 14 de novembro, em Brasília. A possibilidade vem sendo analisada pelo Palácio do Planalto juntamente com o Itamaraty e a expectativa é de que uma posição oficial possa ser formalizada durante a reunião, que contará com a presença do presidente da China,  Xi Jinping.

De acordo com a analista de Comércio Exterior da Thomson Reuters, Ângela Maria dos Santos, “é notório que há muitos aspectos positivos para avaliar a desão do Brasil a esse megaprojeto. O Brasil possui um bom relacionamento político-diplomático com os chineses, que vem a complementar as necessidades mais urgentes da economia brasileira. Também é visto como positiva a participação chinesa no Brasil, nos setores de infraestrutura e logística, energia, alimentos, petróleo e gás, siderurgia, automotivo, química e petroquímica, saúde e TICs (Tecnologia, Informação e Comunicação). Então, a possibilidade da conclusão dessa ousada empreitada chinesa e, consequentemente, segundo os chineses, não havendo mais dependência dos mecanismos tradicionais aplicados pelos europeus e americanos, essa benesse se estenderia às indústrias brasileiras, considerando sua futura inclusão à iniciativa da Nova Rota da Seda”.

Ao mesmo tempo em que aponta os benefícios que a adesão ao projeto chinês poderá trazer para o Brasil, a analista da Thomson Reuters sublinha pontos negativos que a participação na Nova Rota da Seda poderá acarretar para o país: “um deles seria praticamente o mesmo visto por outros países que ainda não aderiram: a insegurança quanto à concretização da modernização da infraestrutura e logística, bem como a possibilidade de endividamento com os chineses, já que muito mais do que é imputado financeiramente, atualmente poderia levar o Brasil a uma dependência chinesa. Outro ponto seria um estremecimento nas  relações com os Estados Unidos, com quem atualmente o Brasil mantém boa relação e encontra-se em início das negociações para um possível acordo de liberalização comercial”.

O governo brasileiro certamente está atento aos receios expostos por opositores da iniciativa chinesa, em especial os Estados Unidos e o Japão, que destacam os impactos negativos que a adesão à Nova Rota da Seda poderá acarretar aos países parceiros, com dívidas astronômicas, apreensões de terras, casos de corrupção e de degradação ambiental, além da falta de emprego para a população dos países parceiros e a falta de proteção ao trabalhador chinês que emigra para trabalhar nas obras.

Segundo Ângela Maria dos Santos, “fato é que alguns parceiros estão avaliando os benefícios contra as preocupações de  que os projetos os deixem sobrecarregados com dívidas e endividados junto a um governo estrangeiro, como por exemplo o Sri Lanka, que foi forçado a ceder um porto recém-desenvolvido para uma empresa chinesa, em troca do alívio em cerca de US$ 8 bilhões. E ainda o recém-eleito governo da Malásia, que cancelou US$ 3 bilhões em oleodutos e renegociou um projeto ferroviário em 2019, reduzindo o custo da obra em um terço, para US$ 11 bilhões. Novos líderes das Maldívas também estão buscando alívio da dívida contraída com os chineses. Por fim, Mianmar reduziu drasticamente um acordo portuário, firmado pelo regime militar anterior, que passou de US$ 7,5 bilhões para apenas US$ 1,3 bilhão”.

Antes de tomar a decisão de aderir à iniciativa chinesa, antecipa Ângela Maria dos Santos, “o governo brasileiro está disposto a ouvir as opiniões chinesas sobre a cooperação para alinhar os planejamentos do desenvolvimento, promover a conectividade e concretizar a cooperação com benefícios mútuos e o desenvolvimento comum”, além de analisar cuidadosamente as experiências acumuladas pelos diversos países que já aderiram à Nova Rota da Seda.

O que é a Nova Rota da Seda

De acordo com a especialista em Comércio Exterior, “diferentement dos acordos de integração econômica, a Nova Rota da Seda é um ambicioso projeto liderado pela China e seus objetivos principais são a coordenação de políticas, a conectividade das instalações, a integração financeira e o intercâmbio de pessoas, ligando China-Ásia Central-Rússia-Europa (Báltico) e a Rota Marítima, que liga a costa da China à Europa através do Mar do Sul da China e do Oceano Índico em uma nova rota, e do Mar do Sul da China para o Pacífico em outra rota”.

O processo de integração envolve aproximadamente 55 países e cerca de 62% da população mundial de três continentes (Ásia, Europa e África), sendo estruturado em seis corredores: Corredor Econômico Marítimo, Corredor Econômico China-Península Indochinesa, Corredor Econômico China-Ásia Central, Nova Ponte de Terra da Eurásia, Corredor Econômico China-Mongólia-Rússia.

O discurso da China, na avaliação da analista da Thomson Reuters, é que “esse novo modelo de expansão será benéfico para todos os países acordados (baseado no discurso ganha-ganha) e que, segundo os chineses, difere do modelo colonizador já consagrado pelos Estados Unidos e outras potências ocidentais”.

Megainvestimentos

Considerando que a Nova Rota da Seda tem como objetivo acender uma “nova era de globalização”, e assim uma época de ouro do comércio, que propõe beneficiar a todos através de de uma conectividade global, Pequim, por meio de investimentos externos, se compromete a emprestar US$ 8 trilhões para infraestrutura em 68 países. Isto representa 65% da população mundial e um terço do Produto Interno Bruto global, segundo a consultoria global McKinsey

Ângela Maria dos Santos revela que o investimento para essa mega empreitada já conta com US$ 1 trilhão em projetos, incluindo grandes obras de infraestrutura na África e na Ásia Central. O Banco de Desenvolvimento da China reservou quase US$ 900 bilhões para mais de 900 projetos. Os bancos estatais Big Four da China estenderam cerca de US$ 90 bilhões em empréstimos para as economias relacionadas à iniciativa no ano passado e o Asian Infraestructure Investment Bank, que foi lançado em janeiro de 2016, autorizou um capital de US$ 100 bilhões para a iniciativa. Outros US$ 20 bilhões serão pagos com 80 acionistas, dos quais a China é a maior, com uma participação de 28%

Em relação à America Latina e ao Brasil em especial, ela afirma que “a China entende que os países da América Latina e do Caribe fazem parte da extensão natural da Rota Marítima da Seda e, ainda que não geograficamente falando, são participantes indispensáveis na cooperação internacional do Cinturão e Rota quando o assunto é comércio e investimento”.

A China é a segunda maior potência econômica do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e desde 2014 é um expressivo parceiro de diversos países da América Latina. Tanto que, na Reunião de Ministros das Relações Exteriores do Fórum China-CELAC, realizada em 2015, o presidente Xi Jinping propôs que o comércio entre os dois lados chegue a US$ 500 bilhões nos próximos dez anos, e que o investimento direto chinês na América Latina alcance US$ 250 bilhões até 2025.

No tocante especificamente ao Brasil, a China é o maior parceiro comercial do país. É para a China que o Brasil mais exporta e também de quem mais o Brasil importa. Ano passado, as trocas comerciais entre os dois países totalizaram US$ 98 bilhões, enquanto o estoque de investimentos diretos chineses no Brasil atinge a cifra de US$ 70 bilhões.

Fonte: Comex do Brasil

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